segunda-feira, 5 de março de 2012

Maduros e Libertos


Ana, minha querida,

Dizem que o amor acaba, que o amor termina, mas não é verdade. Nada acaba, tudo dura, continua e se transforma.
Enquanto eu aguardava aquela cirurgia, mil anos se passaram. As duas estavam la dentro e eu pensava "Se acontecer alguma coisa com elas, eu morro". Dizem que passa um filme da nossa vida na nossa cabeça e por isso eu vi, vi vocês duas meninas chegando na nossa casa; vi nós três juntos ainda pequenos em tantos e tantos momentos; vi você erguendo taças, troféus, tua imagem na revista inacessível, distante da criança que eu era e que você era também. Depois a nossa fuga de casa, vi nosso medo, vi nossa coragem, vi o salto sem rede que tantas vezes se chama amor. Vi você indo embora, sendo levada de diferentes formas, tantas e tantas vezes e depois vi você voltando, vi no fundo dos seus olhos como num rio, tudo que a gente não tinha vivido. A partir dai eu me vi dividido entre dois amores, entre duas vidas, uma que eu tava vivendo e outra que eu jamais tinha pudido viver. Durante alguns dos piores momentos enquanto eu aguardava naquela sala, como se a doença da nossa filha tivesse me curado eu entendi que não tinha mais divisão nenhuma o que tinha sido vivido, o que tinha ficado pra trás, tudo, era parte de uma mesma história, de uma mesma vida e de um mesmo sentimento, amor.
E foi então que eu vi, nós dois juntos cruzando a fronteira, como se tivesse alcançado a outra margem de um rio. O rio onde a gente se amou pela primeira vez, o rio do meu acidente, mas sempre um rio. E porque naquele momento eu precisava ser forte, finalmente e sem escapes eu consegui atravessar aquele rio eterno, como se num instante eu tivesse vivido todos os anos que ainda estavam parados me esperando. Do outro lado da fronteira, que sem perceber, nós já tínhamos cruzado com uma infância compartilhada, uma adolescência truncada, uma juventude não vivida. Do lado de ca, dois adultos maduros, finalmente libertos daquele fardo pesado, mas que de lembranças, de sonhos antigos. Porque há novos sonhos do lado de ca da fronteira e agora podemos viver.

Ana e Rodrigo

(A Vida da Gente)

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